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A sua corrupção é mais grave do que a minha

18/02/2012

Podem-se elencar milhares de motivos para a corrupção nos governos de um Estado. O mais comum é começar pela fraqueza do Homem diante da sede pelo poder, dinheiro e as vantagens agregadas. É a mais fácil das saídas, e até incentivada pelos opositores daqueles que detém o poder em certo momento histórico, como meio se diferenciar e mostrar ao eleitorado que ele próprio é a solução.

Mas pensando em teorias menos subjetivas, tenho para mim que o próprio Estado, como o conhecemos, é o motivo dos erros. A clássica organização de três poderes, que devem se vigiar e só podem funcionar com a aprovação mútua, parece a menos adequada para o regime democrático. A tripartição é a culpada por obrigar os administradores a negociar parcelas do poder com os adversários para impor sua gestão. Hoje sabemos o quanto isso é caro à probidade.

O chefe do executivo (prefeito, governador, presidente) só conseguirá a aprovação do orçamento para suas políticas públicas, caso consiga convencer o parlamento. Se a maioria dos congressistas dividirem os mesmos interesses, ótimo. Porém, estando isolado politicamente, nada poderá fazer, a não ser esperar o fim do mandato com os índices de aprovação popular escoando pelo ralo.

O parlamentar só terá suas leis aprovadas na respectiva casa, se votar em conjunto com a maioria. E somente poderá levar dinheiro para o progresso da região do país que o elegeu, se for exitoso em manter boas relações com o ministro (ou secretário) da área, este, uma função delegada do chefe do executivo.

O judiciário, que em tese seria um imparcial e apático político, precisa de verbas e aprovação de leis para manter-se isolado do mundo da jogatina de interesses.

Se a sociedade que compõe essa trama for culturalmente homogênea, não haverá problemas nos relacionamentos de interesses. Sendo, porém, habitada por segmentos opostos, não se sabe quem prevalecerá.

O Brasil começou republicano com o então recente modelo estadunidense, entre fazendeiros e oligarcas, homens bons e de moral ilibada. Seus filhos continuaram a saga da sucessão patrimonial, com poucos desvios de orientação, mas sempre no topo da administração pública. Sobrenomes orgulhosos se repetem há séculos desde os tempos de Anchieta.

Só no final do séc. XX os escravos e pequenos comerciantes passaram a participar desta secular pirâmide, adaptando-se aos esquemas pouco ortodoxos de tomada de poder, homogeneizando-se com o habitual. O abismo de miséria que separa os extremos das camadas sociais ficou evidente em ódio e preconceito mútuos. O choque entre os “leitinho com pêra” e os “cremiltons” passaram a se intensificar, e a mídia, muleta tradicional da dominação estabelecida, ganhou e perdeu parceiros importantes, pregando que “a sua corrupção é mais grave do que a minha”.

E os EUA, onde tudo começou, deveria olhar para abaixo da linha do equador para aprender como lidar com a miséria insubordinada. Desde Cabral, a lição que se tira do choque entre ricos e pobres é que o cano da pistola sempre terá um som maior.

MAIS AMERICANOS VEEM CHOQUE DE CLASSES

Taxa de entrevistados que dizem haver conflitos fortes ou muito fortes entre pobres e ricos sobe de 47% para 66%. Discurso do movimento “Ocupe”, iniciado em setembro de 2011, capturou consciência da população, diz instituto

Verena Fornetti – Folha de São Paulo, 18.02.20122 (aqui, só para assinantes)

Com a crise econômica, mais americanos estão percebendo os EUA como um país dividido entre ricos e pobres. Pesquisa do Pew Research Center aponta que 66% dos entrevistados veem conflito forte ou muito forte entre as classes sociais. Em 2009, esse percentual era de 47%.

O número de pessoas que afirmam existir choque muito forte (30%) é o maior registrado desde o início das pesquisas da entidade, em 1987, e representa o dobro do que a resposta obteve na edição passada do levantamento, em julho de 2009.

Para o instituto, o discurso do movimento “Ocupe”, que desde setembro de 2011 promove manifestações contra desigualdade social e lucros corporativos, capturou a consciência dos americanos, mesmo após os manifestantes terem sido retirados de espaços públicos.

Kim Parker, um dos diretores do centro de pesquisa, argumenta, porém, que o fato de mais norte-americanos apontarem a oposição de classes não significa necessariamente que a maioria da população do país esteja revoltada com isso.

“A visão das pessoas sobre os motivos que levaram os ricos a se tornarem ricos não mudou recentemente: 46% disseram que os ricos ganharam dinheiro porque conhecem as pessoas certas ou nasceram em famílias ricas, mas quase o mesmo percentual (43%) disse que a razão é o trabalho duro.”

A sondagem também indica que os americanos veem a sociedade mais polarizada entre imigrantes e nascidos nos Estados Unidos e entre jovens e idosos.

Os negros são a fatia da população que mais enxerga conflito entre ricos e pobres. Entre os entrevistados negros, 74% afirmaram que há tensão forte ou muito forte entre as classes sociais. De acordo com o censo, enquanto o índice de pobreza geral nos Estados Unidos é de 13,8%, a taxa para os negros é de 27,4%.

RENDA

A percepção dos americanos sobre a oposição entre os grupos nos EUA está em sintonia com o que mostram as pesquisas do escritório oficial de estatística. Segundo o órgão, há piora na renda e alta da desigualdade.

A renda da população recuou 2,3% no ano passado na comparação com o anterior. Indicador que considera, por exemplo, propriedades, ações e joias mostra que essas riquezas ficaram mais concentradas nas mãos dos 10% mais ricos -de 49% em 2005 para 56% em 2009.

A pesquisa do Pew Research Center ouviu 2.048 pessoas em dezembro do ano passado. A margem de erro da pesquisa é de 2,9 pontos percentuais.

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4 Comentários leave one →
  1. Ricardo Cavalcanti permalink
    18/02/2012 15:45

    Compartilhei este artigo no face e esqueci de deixar registrado aqui o respeito e admiração pelo grande escritor Roger Franchini. Acredito que os textos de sua autoria, se fossem lidos por todos os brasileiros, fariam grande diferença nos culturalmente privilegiados. Isso aconteceria pq ele dá um tipo de visão além do alcance a todos que de fato querem parar e perceber algumas razões do que nos leva ao buraco negro da estupidez humana. Qdo digo culturalmente privilegiados, não falo de ricos, e nem desmereço os pobres, pois muitos ricos e pobres são grandes colaboradores da nossa política de merda que vivemos atualmente. Mas aqueles que, com base na sua cultura, que provavelmente preferem livros ao invés da televisão, enxergariam melhor se tomassem por base os textos expositivos do Roger. Não só dele, pois temos outros bons expositores tbm. O que faz com que os textos do Roger saltem aos olhos, com certeza, são suas experiências de vida e seu tirocínio em analisar as situações midiáticas com olhos técnicos e desmascarar as mentiras que tentam enfiar goela abaixo em seus expectadores. Parabéns Roger pelo papel social desenvolvido através de suas publicações. Abraço, Ricardo!

  2. Ricardo Cavalcanti permalink
    18/02/2012 15:48

    Ótimo momento para discutir os recentes acontecimentos sobre greves policiais e carnaval, não acha? Farsas e falsos boicotes dentro de um assunto que, aparentemente, é justo, lícito, moralmente correto, porém muito mal utilizado em um ótimo período para que fosse super bem utilizado. Esse país é uma Grande Piada de Muito Mal Gosto!

    • 18/02/2012 17:50

      Ando pensando nas greves de policiais também, Ricardo. Vejo muita gente reclamando, dizendo que policiais não devem negociar a força de trabalho porque escolheram um trabalho incompatível com isso. Para essas pessoas, policiais devem servir incondicionalmente, sem a chance de negociação…

      Um bom começo para o debate.

  3. Ricardo Cavalcanti permalink
    18/02/2012 16:04

    Esse País é uma GRANDE PIADA DE MUITO “MAU” GOSTO… falha minha!

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