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O gosto da carne podre

21/04/2011

Desta vez sonhei que era um Vampiro. Ou algum monstro que carrega o mesmo ódio. No início eu não sabia, mas convenceram-me de que eu vivia para beber o sangue de gente inocente. Manipulava os fracos, extorquia os indefesos, bordava meu retrato com tintas de auto piedade para comover os debilitados e fazê-los satisfazer meus prazeres. Eu era bom naquele jogo de poder e dominação.

A primeira pessoa a me avisar de tamanha perversidade foi minha esposa. Cansada do parasitismo que sugava sua vontade, ela própria tentou me matar algumas vezes. Mas seu desconhecimento sobre a ciência daqueles que vagam entre a vida e a morte a impediu que tivesse sucesso.

Convencida de sua incompetência, chamou a ajuda de amigos sinceros, experientes no trato com defuntos fingidores de sentimentos, e juntos caminharam sob tochas enfurecidas convencidos a limpar o mundo desta abominação que assolava a aldeia.

– Monstro! Monstro. Trouxeste desgraça à nossa terra. Que Deus, nosso Senhor, tenha misericórdia de sua figura, porque nós somos homens imperfeitos que desconhecem a compaixão e somos incapazes de tamanha bondade.

Tentei lembrá-los da involuntariedade de minha miséria; resistia para não impingir mal algum àqueles então queridos. Mas quando a unanimidade está convencida do mal nato, inútil sustentar a legítima defesa. Lançaram suas flechas, cuja dolorosa dilaceração somente serviu para aguçar a cólera da besta. Foram bravos, mas quase todos morreram com corajosa bravura.

Cansados de verem seus iguais tombarem, decidiram que meu exílio seria o menos perigoso para todos, cuja pena deveria ser imediatamente providenciado pela polícia. E quando o Policial Militar apareceu orgulho de sua farda, eu já o esperava sozinho na poltrona da sala, resignado com minha sentença. Perguntei se não tinha medo de mim:

– Sim, senhor. Mas o compreendo e compartilho de sua dor, por isso estou aqui. Eu mesmo só estou vivo porque tomo pessoas queridas como escada para atingir meus objetivos. A diferença é que elas me agradecem, pois lhes dou o descanso de que precisam.

Tivemos vergonha de nossa condição. Sentiu-se à vontade para confessar ter entendido sua doença quando matou sua noiva em uma manhã de natal.

– Inevitável! – Exclamou, mostrando com a pinça da mão o tamanho de sua orelha direita. – Note que temos o lóbulo da orelha soldada ao rosto. Fomos feitos para derrubar antes mesmo que se levantem. Conheces o prazer da reprovação por fazer alguém tombar. Sentiu a delícia de implodir e correr. Só nos resta destruir…. venha, você precisa ir embora antes que descubra é fácil condicioná-los a servi-lo. Não tenho comigo arma alguma para ajudá-lo na fuga, mas pode levar meu rádio, se quiser. Ouvir as festas em homenagem à sua ausência vai lhe ajudar a nunca mais voltar.

Não se iluda. Essa alegria é momentânea e fingida. Em certo instante, eles serão vítimas de outras criaturas semelhantes, mas com a capacidade de aplicar sofrimentos inimagináveis, muito piores daqueles que você ofertava. Aí então eles perceberão que erraram em obrigá-lo ao desterro. Não olhe pra trás; vão chorar, implorar seu retorno. Hoje você é forte, mas se ceder aos apelos do conforto e retornar, o gosto da carne podre dos mortos que comeu invadirá sua memória pela eternidade.

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One Comment leave one →
  1. Só consigo comprar um Cabritiva permalink
    01/05/2011 15:43

    ROGER, vc deve ter gostado muito dessa noticia hem.

    Sugestão para a frase da campanha “Todos brasileiros tem direito a um Rolex”.

    http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/05/01/luciano-huck-2014-nao-vai-ter-para-aecio-nem-cerra/

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