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O estupro de policial no momento da mídia

18/02/2011

Ano passado, pelo antigo Cultcoolfreak, recebi um e-mail desesperado. Uma escrivã relatava que tinha sido revistada em pêlo por policiais masculinos nas dependências do 25º DP da Capital de São Paulo (Parelheiros), em decorrência de uma suposta investigação perpetrada pela Corregedoria da Polícia Civil, por suspeita de ter recebido dinheiro para não prender uma pessoa.

Conversamos pelo MSN algumas vezes. Confesso que no começo achei a história um pouco estranha. Apesar de ser humanista por falta de opção, minha eterna desconfiança na natureza humana tentava encontrar um fio de inverossimilhança na trama que me contou.  O absurdo do que ouvi era tamanho, que dificilmente entraria em um livro meu. Disse também (o mais chocante) que toda ação fora gravada pelos próprios policiais da diligência, a mando do delegado responsável.

Juro que não acreditei. Como poderia, em pleno século XXI, um delegado ignorar o art. 249 do Código de Processo Penal, de redação tão simples, quase pueril, em desfavor de outro policial?

Na ocasião de nosso encontro, a moça estava prestes a ser exonerada do cargo e me pedia ajuda técnica. Apesar da desconfiança sobre a veracidade dos detalhes, por força de ofício, deixei meus contatos para o que fosse preciso. Em estado de choque, chorava ao dizer que tinha ligado para jornalistas e ido ao Ministério Público com o DVD da gravação, e nada havia sido feito pelos promotores. “O que me resta, o que me resta?”. Nunca mais me ligou, nem tive mais notícias suas. Outro nome no diário oficial.

Hoje chego em casa e vejo a manchete do jornal da Band: “Policial é deixada nua e revistada à força“. Tudo veio a tona, no momento em que a mídia achou que deveria ser.

Apesar de registrado nas imagens, não se vê o dinheiro supostamente encontrado em sua roupa íntima. Está ali apenas uma mulher desesperada. Se havia flagrante, bastava-se formalizá-lo na forma permitida pela Constituição Federal, e que a a própria mulher reiteradamente rogou que fosse feito. Revista em mulher, só mulher pode fazer. Melhor deixar um culpado ir embora do que arriscar  infringir garantias fundamentais.

Tentei entender por que o fato demorou tanto para ser público. Então o jornalista, ao final da matéria, foi claro ao explicar o objetivo da divulgação: hoje, na Secretaria de Segurança Pública Paulista, temos um secretário fortalecido pelas notícias de atitudes duras tomadas pela Corregedoria contra a polícia civil para pôr ordem na casa . Mas é ligado ao ex-governador José Serra, grupo político contrário ao atual governador Alckimin.

Não sei onde isso tudo vai parar. Mas é certo que agora a moça pode se sentir mais leve, porque todos sabemos que ela tinha a mais absoluta razão. Mais uma vida destruída pela polícia civil.

(No ensejo, fiquem com esse post da Cíntia Costa, em seu blog homônimo, sobre o medo das mulheres das cantadas de pedreiros).

 

ADENDO 1: de acordo com o Blog do Pannunzio, existiu um inquérito para investigar os abusos cometidos pela equipe da Corregedoria, mas já foi arquivado pelo MP e referendado pelo Juiz do caso.

ADENDO 2: o vídeo dos policiais já está disponível no Youtube.

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