Skip to content

Desabalada carreira

08/02/2011

Sábado uma notícia me chamou a atenção.
Talvez ninguém tenha percebido, mas dois ladrões do furto ao Banco Central, narrado no livro “Toupeira“, fugiram da cadeia de Itaitinga, no CE. Apesar de terem tido uma participação interessante no desenvolver da história (um deles foi preso em um shopping de São Paulo), foram rumos que não dei muita atenção no livro. Como sempre disse, o gigantesco número de pessoas envolvidas me obrigou a tomar decisões que só a literatura permite, como ignorar a presença de alguns criminosos em prol do bom desenvolvimento da narrativa.

Outra boa notícia: continuamos o segundo livro mais vendido na Livraria da Folha. Obrigado a todos vocês  pelo carinho, e aguardo os e-mails com as considerações sobre a leitura. A opinião dos leitores me ajudará construir os próximos livros da coleção.

Fiquem com minha entrevista para a revista Cultura News, da Livraria Cultura. Sempre que o jornalista lê o livro antes de conversar comigo o resultado é bem bacana. Espero que gostem:

Ex-investigador da Polícia Civil lança livro sobre o assalto ao Banco Central de Fortaleza
Por Pedro Jansen

07/02/2011 – Roger Franchini é advogado e ex-investigador da Polícia Civil de São Paulo e foi convidado pela Planeta para escrever a história que estava por baixo do pano, da terra e do tempo que separaram aquele dia de 2005 quando mais de 20 homens assaltaram o Banco Central sediado em Fortaleza. Aqui, Roger fala do tempo dedicado para a redação da obra, aborda o distanciamento dos envolvidos para chegar a uma redação mais a salvo de falsas impressões e dá poder de decisão para o leitor quando responde sobre quanto do livro é romance e quanto dele é fato apurado.

Li o livro inteiro e não achei uma “justificativa” para a tua escolha em tratar do tema e quando se trata de um tema que tem tanta importância histórica, convém saber: o que te levou a dedicar tempo e paciência para a história do assalto do BC de Fortaleza?

O livro nasceu de um projeto literário que engloba uma coleção de livros. Quando a Editora me convidou para trabalhar nisso, pensei em um crime que fosse ao mesmo tempo interessante para o leitor e que me permitisse utilizar as lembranças dos tempos de investigador. O furto ao Banco Central tinha todas essas características. Mesmo sendo um assunto nacional, teve repercussões na polícia civil de São Paulo, instituição que conheço bem.

Quanto tempo você tomou na pesquisa e redação do livro? Aliás, quais os principais impedimentos para a escrita do mesmo? Imagino que com tantos detalhes negativos da relação entre bandidos e polícia, algum impedimento você deve ter tido.

O projeto nasceu em julho do ano passado. Usei esse mês para a pesquisa, indo à Fortaleza para ter acesso aos autos. Seguiu-se um período de montagem da história e construção dos personagens de mais ou menos uns 45 dias. Depois de todas as revisões do editor, e as opiniões dele sobre a cara final do enredo, o trabalho estava pronto em outubro. Meu processo criativo envolve um grupo da editora e de amigos, com quem converso e verifico os resultados no leitor. Não me vejo como um escritor e não pretendo criar nada de inovador na literatura, por isso não tenho muitos escrúpulos com meus textos. Joguei capítulos inteiros no lixo que, apesar de considerá-los bons, não eram adequados ao enredo. Crio personagens apenas para preencher cenas, e mato outros pelos quais me apaixonei porque não encontrei uma maneira de encaixá-los na narrativa. Filtrar todos fatos apurados na investigação e colocá-los em uma ordem cronológica dificultou a construção da história. Como havia muitas pessoas envolvidas, tive que inventar uma maneira de apresentá-los ao leitor sem que fossem confundidos, ou tornasse a história chata.

Quando se vai tratar de um assunto assim, muito fica exposto. Ser ex-membro de uma das organizações envolvidas nas investigações te deixou com algum conflito moral em expor os problemas das corporações? Aliás, como teus ex-colegas receberam um relato tão cru?

Eu pertenci à polícia civil e tenho um compromisso ético com muitos colegas que lá ficaram. Fiquei preocupado com o risco de passar uma imagem estereotipada desse profissional. Acredito que o leitor seja maduro e tenha o discernimento suficiente para entender que os policiais que estão na história não representam toda a instituição. Desde o meu primeiro livro, o “Ponto Quarenta”, tenho a caneta pesada para expor essas mazelas. Curiosamente, meu público principal é o policial, e nunca recebi nenhuma crítica deles por me propôr contar o que via nos corredores das delegacias. Pelo contrário. O policial honesto faz de minhas histórias um canal de manifestação sobre as dificuldades de seu trabalho. Ele quer que sua instituição mude e o respeite como, mas não sabe como atuar. A polícia tem uma ética própria que o contribuinte desconhece. Tomar dinheiro do bandido ou ignorar a vítima porque ela não lhe trará resultados financeiros não é mal visto lá dentro. Mas a culpa não é só do policial: é um sistema político centenário, que tornou o investigador – e aqui incluo o delegado também – um subalterno sem gestão de seu trabalho, submisso a uma burocracia aristocrática de compadres e uma legislação que impede a expressão de seu pensamento. Para o tira ou o delegado sair do plantão – do mero atendimento ao público – e ir para um departamento especializado, onde terá a chance de exercer o trabalho de polícia judiciária, não depende do mérito de sua competência, mas de sua adequação à orientação política do grupo que tem o poder político naquele momento. Isso é bom para o governo, porque assim tem a certeza de que não terá incômodos com uma eventual investigação criminal contra si. Bom também para a literatura, que sempre terá ótimas histórias de conflitos humanos para contar. Quem perde é o cidadão e a investigação.

Você entrevistou os envolvidos no crime ou apurou tudo dos depoimentos e relatórios? Qual a impressão que eles te passavam sobre o furto? Orgulho? Decepção? Arrependimento?

Não quis conversar com ninguém envolvido no crime. Pautei-me pelas informações que existem no processo. Se optasse por ter contato com o bandido ou os policiais, haveria o risco de acabar ouvindo uma segunda versão da história. E eu nunca iria terminar o livro se não apurasse a confissão extraoficial até ter a certeza da verdade.

Quantos dos principais envolvidos ainda estão presos? Você teme algum tipo de retaliação por parte do Partido?

Não acompanhei o processo de execução dos envolvidos, mas espero que o livro chegue nas mãos deles para ouvir o que acharam da história. Não criei novas teses investigativas ou outras hipóteses de autoria do crime. No livro, PCC e polícia civil acabam se confundindo em princípios e objetivos, cada um ao seu modo.

Por mais que o livro esteja bem recheado de dados, falas e descrições, há sempre alguma coisa que fica de fora por falta de tempo ou por falta de fontes. O que você gostaria de ter investigado para o livro e não conseguiu?

Gostaria de ter trabalhado mais a morte do Fê, de seu advogado, e do envolvimento de políticos na história. Mas se me aprofundasse nisso, acabaria por escrever outro livro e sairia dos nosso objetivos. Talvez fique para uma próxima oportunidade.

Há muitas citações “veladas” a personagens corruptos das forças policiais. Como é lidar com essas personalidades dentro das corporações?

Com o tempo, para não ceder à loucura, o policial acaba por tratar essas pessoas com naturalidade e bom humor. A maior preocupação ao longo da carreira é como não se sujar muito em trabalhar com pessoas que já perderam o parâmetro de moralidade e ética. A policia civil é a única instituição que te permite ter acesso a valores gigantesco, e sumir com eles sem que ninguém saiba. É possível o bom policial se manter alheio a tudo isso, mas apenas por saber dos fatos que ocorre ao seu redor já o torna cúmplice da conduta criminosa. Viver com essa culpa é a luta de todo dia.

Teu livro termina sendo dois: um que fala do esforço e da coragem de furtar o BC, da determinação dos bandidos em meter a mão no alheio, outro que trata da fragilidade moral dos nossos “vigilantes”…

Sim. Houve essa preocupação. O furto em si é algo cotidiano demais para atrair a atenção do leitor. Foi preciso humanizar os personagens e torná-los sensíveis a temas caros para todos nós, como família, sucesso, dinheiro, carreira, solidão, egoísmo, paixão. Os dois grupos possuem seres humanos que vivem realidades segregadas da sociedade, e alheios à ordem jurídica.

Pra ti, qual foi a principal falha do plano do furto?

Depois de tudo o que li, considero que houve mais sucessos do que fracassos no crime. Grande parte do dinheiro não foi localizado, e muitos dos acusados estão livres. Acredito que o elevado número de pessoas envolvidas tenha dificultado manter o silêncio. Alguém sempre acaba falando mais do que deveria para os amigos, e aí a casa acaba caindo.

Quanto do livro é romance e quanto dele é fato apurado?

É uma pergunta que quero que o leitor responda por mim. Garanto que não precisará de curso na academia de polícia para descobrir.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Fabiana Santos permalink
    09/02/2011 07:31

    Li o livro, tenho conhecimento sobre todo o processo e os fatos narrados não condizem com os acontecimentos. A maior parte da história trata-se de ficção, induzindo o leitor a acreditar em coisas que não verdades. Pelo que pude apurar o autor foi leviano em apresentar afirmações as quais não têm fundamentos. Ele apenas usou o “título” do acontecimento histórico para vender livros sem preocupação de apurar a verdade dos fatos espalhando uma história que não existe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s