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Dinheiro do furto aguçou ambição de policiais

22/01/2011

ENTREVISTA » ROGER FRANCHINI
Dinheiro do furto aguçou ambição de policiais
Publicado em 22.01.2011

José Teles zteles@hotmail.com Toupeira – A história do assalto ao Banco Central é a segunda obra de Roger Franchini, Em formato de reportagem e thriller, como a fortuna roubada desfez a fronteira entre bandido e polícia. Em entrevista ao JC, Franchini explica como chegou aos detalhes do livro, fornece detalhes dos meandros da polícia que conheceu de dentro, sem dourar a pílula. Não dá nome aos bois, mas livra a cara de pouca gente.

JC A narrativa do livro é rica em detalhes. Você conversou com integrantes da quadrilha?

ROGER FRANCHINI – Minha única fonte de pesquisa foi o processo e alguns jornais da época. Preferi não conversar com os policiais, nem com os criminosos, para não ser influenciado pelas informações novas que eles poderiam trazer em uma confissão informal.

JC Há muito diálogo na narrativa e pequenos detalhes, como por exemplo o da turista italiana, pela qual um dos integrantes chega perto de se apaixonar.

FRANCHINI – Os diálogos foram criados com base nas oitivas dos envolvidos, que constam das peças processuais dos delegados, do ministério público e juiz. Só contribui com a experiência que tive como investigador, do contato com gente envolvida com todo tipo de crime, inclusive os cometidos contra bancos. Preencho o silêncio jurídico do processo com pequenos fatos e diálogos, inserindo personagens para amarrar a trama, mas com a preocupação de não distanciar da história transitada em julgado.

JC Entre estes detalhes, há o de um dos integrantes, Moisés, cruzando São Paulo, numa blazer, que lhe foi emprestada pela polícia, em meio a um clima de terror comandando pelo PCC, na capital paulista em 2006. Moisés foi incumbido de resgatar o filho de Marcola, o poderoso chefão do PCC, sequestrado pela própria policia, como chegou a este capítulo da história?

FRANCHINI – Na época dos ataques, em plena madrugada de um domingo de Dia das Mães, eu fiquei três dias e três noites enfiado em uma cadeia tentando conter uma rebelião. Nunca tinha visto o medo nos olhos dos colegas policiais que me acompanhavam. Uns saíam de perto para chorar em silêncio, e não havia perspectiva alguma de que a coisa iria se resolver. Parecia o final, que havíamos perdido uma guerra. Foi então que recebemos a notícia pelo Cepol (o sistema de comunicação via rádio da polícia civil paulista) de que havia uma viatura da polícia militar clonada, com as mesmas cores e insígnias, rodando pelo Estado com integrantes do PCC fantasiados de PM. Isso me chocou bastante. Até então não havia me dado conta da força das pessoas com que lidávamos no dia a dia, e de minha fragilidade. Narrá-la da forma como consta no livro foi o modo que encontrei para oferecer ao leitor a mesma sensação que tive naquela ocasião, um misto de incapacidade de reação e medo. Colocar um dos criminosos dirigindo uma viatura policial a mando da própria polícia, como única solução para encerrar os ataques, foi uma liberdade poética para celebrar a grandiosidade do furto ao Banco Central, e homenagear os colegas que vi chorando naquela noite, lá na cadeia.

JC A ligação entre os atos de terrorismo do PCC em São Paulo e o assalto, na verdade, furto, ao Banco Central, é uma das surpresas do livro.

FRANCHINI – Não deveria ser. Se foi essa a sensação, é sinal de que nos esquecemos muito rápido das tragédias. Uma simples pesquisa no Google mostra jornais da época fazendo essa ligação, inclusive, alardeando que o sequestro do afilhado do Marcola foi a gota d’água para os ataques. Bom você tocar nesse assunto, porque uma das minhas frustrações com relação ao livro foi só ter conhecido o ex-investigador Augusto Peña depois de todos os exemplares já terem sido impressos. Ele foi um dos acusados de ter feito esse sequestro, e hoje tem um blog (http://augustopena.blogspot.com), onde posta documentos comprometedores e conta histórias de abusos cometidos pela polícia, inclusive sobre esse evento. Conversando com ele, descobri que aquilo que nós, policiais, sabíamos apenas de ouvir pelos corredores das delegacias, não era nem um centésimo do que ele tinha presenciado.

JC Na época, se noticiou que os ataques do PCC teriam acontecido por causa de transferências de bandidos para penitenciárias de segurança máxima.

FRANCHINI – A imprensa disse isso sim, me lembro. Todos queriam entender o que levou São Paulo a se esconder, quem e como conseguiu deixar a polícia imobilizada. A remoção não foi a causa principal. Os ataques já eram de conhecimento da cúpula da polícia muito antes do “bonde” acontecer, conforme se descobriu depois. Só que não apostavam que eles seriam tão bem organizados. O ódio começou com o assassinato do Fê, uma dos envolvidos no furto ao Banco Central e seu advogado. O dinheiro do furto aguçou a ambição dos policiais, mas também financiou a insurreição.

JC O mais estarrecedor no livro, nem é a imensa soma surripiada, mas a ação da polícia, que caiu em campo, não para recuperar o dinheiro, nem prender os bandidos, mas para pilhar o máximo possível que pudesse.

FRANCHINI – Mas não podemos ignorar o trabalho da polícia federal na identificação de alguns dos envolvidos. Se o crime foi espetacular, a dedicação desses homens também merece o mesmo elogio. Infelizmente, a rotina de tomar dinheiro de bandido é coisa corriqueira na polícia desde sempre. Dentro da instituição há uma outra ética que só funciona do lado de dentro do balcão. Lá, ficar com dinheiro de traficante não é mal visto. Pelo contrário. É sinal de competência. É difícil não generalizar, porque conheci pessoas valorosas na polícia. Mas o que constatei é que a medida do bom policial de investigação – do delegado ao investigador – é sua capacidade de arrecadação financeira sem criar problemas com a imprensa. É um dos motivos que os promove para os bons departamentos. Todos os cargos da polícia civil são cargos políticos, cuja ocupação se dá por meio de indicação. Então fica o jogo de interesse: o policial honesto sonha em trabalhar no lugar em que poderá gozar de horários flexíveis para assim ganhar seu dinheiro no bico, e aqueles que não se importam com o ilícito, querem ir para o departamento que lhes garanta o acesso a grandes valores.

JC Um dos trechos mais significativos do livro, e lamentável, é o que se conta como policiais civis de São Paulo viajaram até Fortaleza, “arrecadaram” cerca de 23 milhões, e voltaram deixando os bandidos livres.

FRANCHINI – Os envolvidos no furto ao Banco Central narraram, no processo, que sofreram esse tipo de extorsão inúmeras vezes, inclusive em Fortaleza, por pessoas com sotaque paulista. Em algumas ocasiões fizeram questão de salientar que todo o dinheiro que conseguiram subtrair do banco foi entregue aos policiais civis paulistas, mas sem dizer nomes. Foi o que fiz também.

JC Você como ex-policial, conhecendo bem os meandros da corporação, não teme pelas revelações que faz da chamada Operação Toupeira?

FRANCHINI – Não houve revelações ou qualquer fato novo no livro. Tudo está no processo, um documento público que pode ser consultado por qualquer pessoa. Mas ele é tão chato que ninguém lhe dá um valor literário que merece. Ocorre que as informações que a imprensa colhem são esparsas, e por isso fugazes.

JC – A a narrativa do livro lembra a dos bons romances policiais.

FRANCHINI – Eu tinha um conflito imenso com a literatura policial detetivesca e a realidade que presenciava nas delegacias. O detetive no Brasil não tem o mesmo papel que está sacramentado nesse estilo de romance. A grande parte destas pessoas – e aqui confesso que generalizo, baseado no que via – são os gansos – os informantes da polícia que não conseguiram ser policiais, figura muito presente nas delegacias. Em recompensa, recebem drogas, produtos de crime ou pequenos favores como andar armado, efetuar prisões, entre outras coisas. Nada parecido com um Sam Spade ou Philip Marlowe.

JC Qual a lição, se lição há, deste episódio, onde polícia e bandido se confundem, e a imprensa mais confunde do que esclarece?

FRANCHINI – Sorria discretamente e duvide de tudo e de todos. Duvide até de você mesmo, do que acredita como verdade absoluta. A casa pode estar sólida, mas um dia ela apodrece e cai.

Entrevista concedida ao Jornal do Commércio, de Recife. A matéria original pode ser lida aqui, se você for assinante do UOL ou do jornal.

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2 Comentários leave one →
  1. Sergio Bianco permalink
    23/01/2011 16:11

    Polícia Civil tomando dinheiro? Conta uma novidade…

  2. Paulo Z. permalink
    19/03/2011 10:11

    Um livro revelador……revela uma instituição podre onde a impressão que se tem é de que o interesse público fica de lado e sobressaem os interessos privadas de pessoas e organizações crimonosas. É a minha tese de que o Estado é falido e de que o único setor que realmente funciona de modo eficiente é o setor de cobrança de tributos. O resto é fachada! “Salve-se quem puder” deveria estar escrito na bandeira do Brasil e não “Ordem e Progresso”.

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