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De que lado estão os bandidos?

22/01/2011

» LIVRO
De que lado estão os bandidos?
Publicado em 22.01.2011

O escritor Roger Franchini narra a relação corrupta da polícia civil paulista com os bandidos que assaltaram o Banco Central de Fortaleza

José Telesteles@jc.com.br

No dia 11 de maio, de 1996, várias cidades de São Paulo foram alvo de uma série de bem planejados e sequenciados atentados contra delegacias, prédio públicos e particulares, incêndio de ônibus. Os ataques se repetiram até o dia 19, e logo se noticiou que o Primeiro Comando da Capital, PCC, era o responsável. O motivo, segundo grande maioria da imprensa, foi a transferência de dezenas de integrantes da organização criminosa para penitenciarias de segurança máxima. A Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, poderoso chefão do PCC, foi atribuída a responsabilidade dos atentados, comandados da prisão. Foi, mas não por causa das transferências de integrantes da organização criminosa.

O motivo por trás da ação terrorista que quase para a capital paulista, com saldo de 128 mortos, e 59 feridos, estava bem longe de São Paulo, capital. Mais precisamente a 3.094 Km, em Fortaleza (CE). No dia 5 de agosto, de 2005, a agência local do Banco Central foi vítima do maior assalto a banco da história do País: estimados R$ 165 milhões. A estimativa, porque nem os próprios bandidos que invadiram o BC sabiam com certeza. Os responsáveis, em pouco tempo, foram pegos, mas apenas um quinto do dinheiro recuperado.

Nos dias que se seguiram ao roubo a polícia protagonizou um dos mais lamentáveis capítulos da corporação. Como um ato espetacular de bandidos paulistas e cearenses desaguou no terror que se abateu sobre São Paulo, e a desvairada cobiça de policiais desonestos, que desafiaram o poder do PCC, é contada, em ritmo de thriller no livro Toupeira a história do assalto ao Banco Central, pelo ex-investigador de polícia e advogado Roger Franchini (Editora Planeta do Brasil, 204 páginas, R$19,90).

O “toupeira” porque os bandidos alcançaram o prédio do banco por túnel cavado a partir de uma casa que alugaram a pouco mais de cem metros do BC. O livro é lido como uma trama bem urdida de ficção policial. Lembra um dos grande do gênero, o americano Jim Thompson, em cujos romances a moral passa por longe de convenções, e heróis não existem em certos nichos da sociedade.

Os bandidos no livro de Franchini são mostrados como seres humanos normais. Ou quase. Prezam a amizade, a família, contam piadas durante um churrasco, mas ao mesmo tempo assassinam, se drogam, são fieis às ordens do PCC, e possuem uma resignação franciscana ao entregar o produto do roubo à polícia, mesmo debaixo de porrada. A certa altura da narrativa, vão abaixo as barreiras que separam polícia de bandido. O autor enxerta personagens de fantasia na realidade, para apimentar o molho, mas não sai da rota. Além de romancear a vida real, Toupeira – A história do Assalto ao Banco Central é uma das denúncias mais veementes contra o poder paralelo do aparato policial, que Franchini conheceu muito bem, durante os seis anos em que foi investigador da Polícia Civil de São Paulo, inclusive na época do crime. Qualquer que seja a ótica pela qual o leitor analise o livro, dificilmente ele interromperá a leitura até chegar o final.

Franchini deixou a corporação em consequência de uma carta que enviou à Folha de S. Paulo, respondendo ao apresentador Luciano Huck, que teve um Rolex roubado, e comentou o episódio também ironicamente em seu blog. Na carta à Redação, revelou que a polícia sabia onde estava o relógio. A denúncia o levou a enfrentar a corregedoria da Polícia Civil. Absolvido, saiu da polícia. Passou a exercer a advocacia, casou com a autora de literatura policial Olívia Maia e virou escritor. Estreou em livro com Ponto quarenta – A Polícia Civil para leigos (2009).

Publicado no  Jornal do Commércio, de Recife. A matéria original pode ser lida aqui, se você for assinante do UOL ou do jornal.

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One Comment leave one →
  1. Patricia R. permalink
    23/01/2011 15:59

    Adorei o livro. Comecei e não consegui parar. Quando sai o próximo?

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