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Tetro

16/01/2011

Tetro (2009) começa estranho. Segue envolvente e termina chocante. O filme de Francis Ford Coppola feito em Buenos Aires utiliza-se mais do que o cenário da cidade Argentina para contar a história do fracassado escritor Tetro (corruptela de Ângelo Tetrottini) e seu irmão mais novo, Bennie. O diretor está feliz com seu primeiro roteiro original desde A Conversação (1974). Existem filmes que não merecem cinco minutos na sala de cinema. Outros dá vontade de, terminada a sessão e acesas as luzes, levantar e aplaudir. Tetro é esse.

Coppola brada com orgulho que não precisou do dinheiro de grandes estúdios para fazer a película. O lucro de seu vinhedo o patrocinou. Quando lhe tecem elogios sobre os grandes filmes que criou nos anos 70, sempre diz, em tom jocoso, que não fez nada além de obedecer a vontade dos produtores. Após 40 anos, o realizador da saga “O Poderoso Chefão” e “Apocalipse now” faz o que gosta, da forma como acha melhor.

Não espere uma Buenos Aires de turista. Não há Porto Madeira, Recoleta. Mesmo La Boca, o bairro onde moram os personagens, passa longe do conhecido trajeto do El Caminito. A cidade do diretor é cinza e decadente. Feia, suja e sem futuro. Por outro lado, as pessoas são ricamente efervescentes, dotadas de uma sexualidade tão natural que faz a mais bronzeada das cariocas parecer uma frígida paulistana no ponto de ônibus chuvoso da augusta. Tudo é pobreza. Mas na miséria se vive muito bem.

A coragem de não querer enganar o espectador assusta. Não há o plano mentiroso das steadycam’s, que pode ver tudo de onde quiser. A câmera não vai além de onde um olho humano poderia chegar, no limite de sua própria altura. Retoma o cinema dialético entre diálogo e narrativa visual, evitando imagens jogadas aleatoriamente para enfeitar a música de fundo. Desnecessário elogiar a construção fotográfica da obra.

Por estar na artéria da América Latina, Coppola adotou o dramalhão como ferramenta. Acabou por descobrir que não há melhor maneira de contar a história de destinos desencontrados entre pais, filhos, irmãos, traições e rivalidades. O hipster que cresceu enfileirado na TV a cabo assistindo a verdade irreal de “Friends” ou “Seinfield”, protegido das desgraças humanas que o cercava (tão ao gosto da artificialidade hype de Woody Allen), enxovalha a exagerada sinceridade que escorre pelas paredes, cuspindo falas que nascem do fígado. Das tragédias recolhidas por Sófocles, ao imundo subúrbio de Nelson Rodrigues, a crueldade de uma cusparada na face do irmão que amamos é mais violenta do que táxis amarelos explodindo com raiva infantil pelo ar. Vamos morrer agora, ao atravessarmos a rua, e sabemos disso. Resta o desejo, a libido que não podemos controlar, apenas calar.

Assim é Tetro. Felizmente adulto. O final é cínico, ridiculamente patético. E por isso delicioso. Carmen Maura está lá para dizer isso, como a cruel crítica que busca unir a grandiosidade do teatro com o mundo pop (em suas própria palavras). Coppola ri dessa personagem ao encerrar o filme da forma mais comum possível.

E se mesmo assim não gostar, o ingresso valerá pelos peitinhos de Sofia Castiglione, em um menage com Leticia Brédice e um rapaz (que quase não notamos na cena).

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